15 de jul de 2011

A morte súbita dos árbitros

As pessoas ligadas à mídia esportiva nos inúmeros programas na televisão, que também fazem parte de outros meios de comunicação, como rádios, jornais e revistas esportivas, com colunas exclusivas e grande espaço nas emissoras – todas têm algo em comum: a possibilidade de ver e rever quantas vezes necessárias um lance duvidoso para dar seu veredicto final: a crucificação ou a absolvição do juiz ou dos bandeirinhas (juiz e bandeirinhas são termos pelos quais a mídia esportiva os chama).

Estas opiniões são baseadas em cima de vários ângulos capturados pelo olho frio das diversas câmeras de televisão espalhadas em redor do solo sagrado (campo de jogo - regra 01) e até em cima dele, sustentada por um cabo de aço. Com todo este aparato tecnológico, tais pessoas não têm misericórdia, condenam à "morte" o árbitro (regra 05) ou seus árbitros assistentes (regra 06), que contam com fração de segundos e apenas um ângulo de visão para aplicar a Carta Magna do Futebol (livro de regras).
Contudo, temos dois bons exemplos de que tais pessoas, com toda esta parafernália eletrônica, vendo e revendo as imagens, ainda sim dão veredicto errado.
O primeiro exemplo vem da França, Copa do Mundo, 23/6/1998, Estádio Velódromo, Marselha, Brasil x Noruega. Próximo do fim do jogo, o árbitro Estandiar Baharmast (Estados Unidos) viu um penalti (regra 14) cometido pelo Júnior Baiano. Para seu azar, todas as câmeras oficiais e não oficiais, do tipo "câmera exclusiva", não flagraram a ação que gerou a penalidade. Consequentemente, o árbitro foi tarjado de "ladrão", pelo narrador, principalmente depois do comentário feito pelo comentarista de arbitragem. Ambos da principal emissora de televisão do Brasil.



No dia seguinte, a verdade – uma imagem feita por uma emissora que estava gravando cenas dos torcedores para um documentário a pedido da FIFA. A imagem revelou que o árbitro estava correto. Pênalti claro: Júnior Baiano agarrou e puxou o adversário dentro da área penal (regra 01). Tarde demais, a sentença já estava proferida, o árbitro estava voltando a seu país. No entanto, não houve qualquer pedido de desculpas por parte daqueles que o condenaram, ficou no esquecimento.  


 O segundo exemplo vem da Taça Libertadores, o mais importante torneio de clubes da América. Não me lembro do adversário do São Paulo, porém recordo muito bem do lance: uma reposição de bola por tiro de meta (regra 16). Executado com um chute forte do goleiro adversário, a bola chegou ao atacante completamente livre, entre ele e a linha de fundo só havia Rogério Ceni. Então vem a voz do narrador, aos gritos: "O bandeirinha está louco, está impedido, burro! este bandeirinha está mal intencionado, impedimento claro".
A partida seguiu normalmente. Em todas as participações do tal bandeirinha, voltava o comentário de "burro!". Ao se aproximar o fim do primeiro tempo (regra 07), veio o comentário: "Naquele lance do impedimento o bandeirinha estava correto, pois a bola veio de uma cobrança de tiro de meta, sendo assim não há impedimento, a regra é clara!". Mesmo reconhecendo o erro, ninguém pediu desculpas por chama-lo de "burro". Mais uma vez a sentença estava proferida.
Com estes dois exemplo pode ver o quanto a nobre função é exposta aos comentários destrutivo, sem a visão do árbitro, sem a visão do espírito do jogo. Os erros de arbitragem sempre existiram, hoje até com mais frequência por causa dos recursos tecnológicos.
Isso não é justo. É fácil sentar numa cadeira de frente a um monitor de televisão e dar opiniões – seja na imprensa esportiva falada, escrita e televisionada. Difícil é enxergar com os olhos da arbitragem.
Por Valter Ferreira Marianoo
Nota: No segundo vídeo o árbitro Estandiar Baharmast (Estados Unidos) explica e mostra o penalti cometido por Júnior Baiano.


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