18 de abr de 2011

Deslocamento Lateral: Aspecto Técnico e Biomecânico

Considerações sobre o deslocamento lateral realizado pelos árbitros assistentes, sob o aspecto técnico e biomecânico. Se executado de forma contínua pode causar lesões e prejudicar a interpretação das jogadas.

Para entendermos melhor, basta compreendermos LER ou DORT (lesões por esforço repetitivo ou doença osteomuscular relacionada ao trabalho). Estes conceitos referem ao movimento repetitivo do trabalho e geram em sua grande maioria, lesões musculoesqueléticas que comprometem a eficácia do rendimento laborativo, prejudicando a produção e, conseqüentemente, diminuindo o ritmo do trabalho.

Fazendo analogia com o árbitro assistente, veremos que o movimento executado lateralmente em deslocamentos sistemáticos, pode, em médio prazo, provocar lesões de esforço repetitivo, sobrecarga e overuse. Ocorre que, se trabalharmos o tempo todo, realizando nos 90 minutos de uma partida de futebol, o deslocamento lateral, fica comprometida a biomecânica dos músculos abdutores e adutores do quadril, pois nas jogadas de velocidade, principalmente a abdução do quadril (afastamento das pernas lateralmente) é realizada em força máxima, acima da capacidade de sua amplitude que é de 45º aproximadamente.

Isto é claro, se realizado de forma sistemática e contínua. Logo, se exacerbamos este movimento, expomos ao estresse biomecânico estruturas anatômicas além da capacidade funcional permitida, e assim, evidenciamos o risco das lesões. E dentre as quais destacamos: Tendinite dos fibulares, síndrome do trato ileotibial, pubalgia, osteíte púbica, entorses de tornozelo, síndrome fêmoro-patelar, estiramento muscular em adutores, contratura muscular em adutores, bursite trocantérica, tendinite de Aquiles, fasciíte plantar e subluxação do cubóide.

A FIFA, entidade máxima do futebol mundial, através de seus instrutores, e com base em manuais, orienta que os árbitros assistentes permaneçam dentro do possível a maior parte do tempo com sua parte frontal voltada para o campo de jogo, pois, sem sombra de dúvida, as avaliações acerca da sua principal atribuição (impedimento, "fuera de juego", "off side") serão decididas com mais propriedade. O que deve prosperar sem qualquer questionamento é: quando houver um avanço de uma das equipes para o campo de ataque de forma cadenciada, o deslocamento do árbitro assistente deve ser lateral, porém, quando a jogada potencialmente puder evoluir sua velocidade ou nascer de forma rápida, não restará outra opção ao mediador que não tornar seu deslocamento frontal, visando estar o mais breve possível, de forma imperativa, na linha do penúltimo defensor, verificando se um atleta está em impedimento, por estar interferindo no jogo, interferindo em um jogador ou ganhando vantagem por estar nesta posição.

Desta forma, não haverá sobrecarga biomecânica em estruturas musculoesqueléticas importantes, entendendo que a função dos músculos adutores e abdutores do quadril é atuar em sustentação de peso em cadeia cinemática fechada e não aberta como vem sendo realizada. Exemplificando: Nas jogadas em deslocamento lateral com mais velocidade, a ação muscular dos grupos supracitados é extrema, atuando em cadeia cinemática aberta (os pés fora do chão), sem contar que, o torque de força dos músculos adutores e abdutores, se comparados com os grupos musculares anteriores e posteriores da coxa é inferior, daí o surgimento das lesões, se este movimento for realizado sistematicamente e não houver mecanismos de compensação.

Observamos, entretanto, que alguns árbitros assistentes têm feito seus deslocamentos ao longo da linha lateral, sempre através de progressões ou retornos laterais, independentemente da velocidade da jogada, posicionando-se em momentos chaves para sua decisão, fora da linha do penúltimo defensor.

Devemos verificar, também, que os testes realizados pelos árbitros assistentes são frontais, devendo cumprir tanto no protocolo FIFA ou do quadro nacional, nos tiros de quarenta metros um tempo menor do que os árbitros centrais.

Quanto ao treinamento físico e técnico, cabe salientar que este deverá incluir exercícios de fortalecimento e alongamento para adutores e abdutores do quadril, preferencialmente, além, é claro, de um trabalho aeróbico e anaeróbico específico. Com isso, haveria um mecanismo compensatório, minimizador do risco de lesões. Na preparação para o jogo, devem ser realizados exercícios de aquecimento extremamente específicos para árbitros assistentes, os quais inclui um trabalho de deslocamentos com exercícios proprioceptivos e alongamentos.

No pós-jogo, o alongamento é fundamental para estes grupos musculares, bem como trabalho de descontração diferencial para abdutores e adutores do quadril.

Na parte técnica, há uma progressão lateral que evolui de forma rápida para frontal. Acreditamos que este deve ser o caminho, visando um desempenho próximo ao ideal como observado em campeonatos mundiais. Esta performance, com certeza, se deve às atividades intensivas, aos vídeos apresentados, às palestras, além dos famosos estudos de caso, que visam esclarecer e padronizar atitudes, respeitando as interpretações individuais, que são e serão o diferencial que destaca os melhores e os mais dedicados, valorizando-os e os conduzindo aos principais jogos e torneios nacionais e internacionais.

Reconhecemos a importância do deslocamento lateral, realizado de forma cadenciada e seguindo com rigor as determinações dos manuais FIFA, para melhor interpretação das jogadas. E consideramos como pertinentes as normas técnicas implantadas, pois de fato, estar de frente para a jogada oportuniza melhor interpretação da mesma, se o árbitro assistente estiver em linha com penúltimo defensor. Entretanto, reiteramos a total incompatibilidade da realização nas jogadas de velocidade, pelos argumentos biomecânicos funcionais e técnico-pedagógicos aqui apresentados.

Biografia:

• FIFA, REGLAS DE JUEGO. 2007 / 2008

• FIFA, REFEERING TEACHING MATERIALS. 2006.

• COHEN, M. & ABDALLA, R.J. Lesões nos esportes. Rio de Janeiro, Revinter, reimpressão 2005.

• HAAL, C. M. e BRODY, L. T. Exercício Terapêutico na Busca da Função. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 2001.

• SMITH, L. K WEISS E. L. e LEHMKUHL L. D. Cinesiologia Clínica de Brunnstrom. 5ª ed. São Paulo, Manole, 1997.

• NEGRINE, A. Educação psicomotora: A lateralidade e a orientação espacial. Porto Alegre: Palloti, 1986.

 

Autores
Aristeu Leonardo Tavares e Marcelo Luiz de Souza
materia publicada no site:  cartão vermelho
 

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