12 de ago de 2009

O inimigo da Paixão

Ao entrar no solo sagrado( Campo de jogo - regra 01), o árbitro (regra 05) percebe o tanto que é admirado. Uma admiração não agradável, uma admiração vinda da desconfiança, por considerá-lo inimigo da sua paixão, inimigo do seu time de coração.

Na verdade todos aqueles que estão fora do universo da arbitragem de futebol não tem consciência do que falam sobre os árbitros, críticas sem fundamentos, destrutivas e malignas, pois estes não possuem o espírito do jogo e sim o espírito da paixão, e paixão não combina com a razão. Todavia este outro universo de pessoas não pode imaginar as dificuldades que um árbitro de futebol tem para desenvolver sua função. Estas dificuldades têm início ao comparamos o tanto que ele deve correr atrás da bola, porém não pode tocá-la, num espaço que varia de 90 a 120 metros de comprimento por 45 a 90 metros de largura, devendo estar sempre bem próximo do lance, sem interrupção em sua corrida, sem descanso, podendo ao final do jogo ter percorrido mais de 14 quilômetros.

Uma outra dificuldade que o árbitro encontra principalmente dentro do solo sagrado é a falta do conhecimento da Carta Magna do futebol por parte jogadores (regra 03) e treinadores, isso é uma pedra no caminho do bom andamento da partida, pois uma simples marcação de falta (regra 12) é motivo para divergência entre o árbitro e jogadores, e estes sempre querem ter razão ao ponto que quando entrevistados não medem palavras para falar mal da arbitragem.

O árbitro vive constantemente vigiado pelos olhos frios das câmeras de televisão. Sobre os olhares de desprezos dos torcedores. Dos olhares dos jogadores e treinadores que sempre o focam como inimigo. Da falta de tolerância e de compreensão quando um erro é cometido, erro este humano. Até mesmo quando do acerto passa não ser acerto, pois todos o julgam pelo coração e não pela razão, ou simplesmente no caso da imprensa para obter mais IBOPE.

O árbitro passa toda a sua carreira carregando a imagem de “ladrão”, inimigo da paixão do torcedor, não importa onde vai apitar, ao entrar em campo será logo ovacionado com este “título” e esta dificuldade ele deve tirar de letra, pois ele sabe que seu conhecimento da carta Magna o transforma em pessoa diferenciada, o transforma em árbitro de futebol.

7 de ago de 2009

A CRIANÇA E O ÁRBITRO DE FUTEBOL


Árbitro Paulo Pereira - Portugal
O futebol é o principal esporte praticado em todo mundo. A criança quando nasce, sendo  menino, certamente receberá uma bola de presente. Esta o acompanhará para sempre, em casa, na escola, no campinho de terra batida, no clube, em qualquer outro lugar onde possa chutá-la.

A criança praticará o futebol sem nenhuma obrigatoriedade. Neste primeiro estágio ela não dá qualquer atenção ou valor à necessidade das regras, o que importa é chutar a bola.


Um segundo estágio se inicia quando a criança começa a praticar o futebol no sentido de equipe. Observando que não estão mais sós dentro de um espaço, as regras. Este ponto é claramente visto quando a criança demonstra sua competência para criar sua própria regra, se adaptando ao momento que obriga esta mudança, por exemplo: um menor número de jogadores (regra 03) ou até mesmo colocando como traves ou meta (regra 01 – campo de jogo) duas latinhas de refrigerante.


Logo podemos visualizar a chegada do terceiro estágio na vida futebolística da criança, onde sua consciência do caráter arbitrário passa para a necessidade de uma cooperação mútua entre os competidores, resultando na obrigatoriedade de respeitar as regras do jogo.


Como jogador, a criança passa ver um novo personagem: o árbitro de futebol. Para ela este homem de preto representa a lei, sem ele não há jogo, nele será depositado toda a confiança e respeito. O árbitro será visto como indispensável, infalível e incorruptível. Neste estágio a função do árbitro será de um educador, transmitindo as crianças todo seu conhecimento e desenvolvimento da noção das regras do jogo de futebol.

Também neste estágio o árbitro terá sua melhor escola de aprendizagem para ser um árbitro respeitado. Ele passará por um verdadeiro vestibular, ou seja, passará pelo crivo dos pais. Emoção e o coração estarão sempre à frente de qualquer crítica feita por um pai a um árbitro.

O árbitro ainda terá como principal função passar a criança o respeito ao fair play (jogo limpo). Impedir a violência. Exigir que nenhum adversário fosse humilhado ou abusado por razões raciais, étnicas ou religiosas. E que o futebol faz amigos.

 As crianças mais velhas, em seu último estágio, admitem que o árbitro possa equivocar-se e que suas decisões podem ser discutidas. Passando não ser o senhor único da verdade. Porém sabem que sua decisão no momento da partida deve ser amplamente respeitada e aceita.

Infelizmente para o futebol, a criança vê nos pais a principal figura relacionada com a verdade, e sendo assim, quando ela observa seu pai criticar abertamente o árbitro, ela se sente no mesmo direito. É onde nasce o vício que o árbitro será sempre o causador da sua derrota.

Por Valter Ferreira Mariano

5 de ago de 2009

Errar Não é Nenhum Crime. É uma faceta do ser humano.


A sociedade futebolística tem por obrigação compreender que o árbitro é um ser humano e como tal cometerá erros durante as partidas. O árbitro por sua vez deve assimilar os erros e ao reconhecê-los, deve respirar e ter calma, analisar e procurar não comete-los mais. Nunca compensar uma equipe prejudicada com uma inversão ou criar uma situação favorável. Se fizer, estará duplicando o seu erro e diminuindo sua autoridade e credibilidade.


Tomada uma decisão, o árbitro não deve voltar atrás se certo de sua justiça. Se perceber que sua decisão não está correta ou avisada por um membro da equipe de arbitragem que esta cometendo um erro, tendo a partida não reiniciada, poderá voltar atrás de sua decisão inicial. Se assim fizer, não é desmoralizante sua atitude e sim um ato de humildade e justiça.


O árbitro deve está plenamente focado na partida para que a margem de erros seja mínima. Errar uma vez e voltar atrás, normal. Errar pela segunda vez e voltar atrás, ainda pode ser considerado normal. Agora, errar pela terceira vez e voltar atrás, passara a imagem de um árbitro frágil e sem personalidade, os jogadores irão perceber esta fragilidade e irão tirar proveito fazendo do árbitro um fantoche, os treinadores também vão aproveitar para reclamar das decisões quando não favoráveis, sem contar a torcida que irá exercer uma forte pressão sobre a arbitragem para pender em favor de sua equipe.


O árbitro deve ser compreensivo e inteligente para assumir e assimilar o erro, fazer dele uma lição, em outra situação semelhante não o cometes novamente. Afinal, quem nunca errou?


Nota: O jogador perde gol feito, o treinador escala errado, o goleiro não defende uma bola fácil... Os erros são comuns durante uma partida de futebol. Mas o que faz o árbitro quando ele sabe que errou num determinado lance?

4 de ago de 2009

ÁRBITRO OU MESTRE DE BATERIA DE ESCOLA DE SAMBA


O árbitro de futebol tem que saber usar suas ferramentas de trabalho, dentre elas o apito, pois o uso incorreto pode torná-lo um mestre de bateria de escola de samba.


O uso do apito expressa a legítima autoridade do árbitro dentro do solo sagrado, (campo de jogo – regra 01). Será através dele que a partida será iniciada, paralisada, reiniciada e finalizada.


O apito será necessário para autorizar o inicio da partida, no reinício com o segundo tempo e após ter sido marcado um gol. Nestes casos, o som do apito será forte com uma duração mediana.


Em situações que uma infração é considerada branda e corriqueira, que a possibilidade de obter um tento direto é quase nulo, o silvo será curto e seco. Porém, se esta infração ocorrer nas proximidades da área penal (grande área), o silvo será forte e um pouco mais logo, indicando que através dela a possibilidade de obter um gol direto é favorável ao seu executor.


As infrações que levam um grande risco à integridade física dos jogadores, ou jogada violenta, que o uso de um dos dois cartões se fará necessário, o som do silvo será forte e longo, no qual o árbitro mostrará que não gostou nem um pouco da infração. Será como sua “cara feia” para o lance.


Na sinalização de uma penalidade máxima (regra 14), o árbitro deve mostrar através do silvo do seu apito toda sua convicção que a mesma ocorreu. Neste caso, o silvo será forte, bem alto e um pouco longo. Assim todos saberão com clareza que uma penalidade foi marcada.


Ao reiniciar o jogo após o mesmo ter sido paralisado para aplicação de um cartão amarelo ou vermelho, ou para atendimento de atleta lesionado, ou nas substituições, o silvo será curto. Porém, com uma boa altura para que todos saibam que o jogo será reiniciado.


O apito deve ser usado de forma repicada para chamar atenção que algo está errado ou fora de posição, como a posição da bola no quarto de circulo na execução de um tiro de canto (regra 17), a distância de 9,15m da barreira em relação à bola, do tiro de meta (regra 16) ou do posicionamento do atleta na cobrança de um arremesso lateral. Este silvo repicado informa que o posicionamento deverá ser corrigido para que se possa reiniciar a partida.


Não se fará necessário o uso do apito para autorizar a execução de um tiro de canto, meta, arremesso lateral ou quando um gol é marcado (regra 10). Porém, se há demora na execução ou um gol é marcado deixando dúvida se bola entrou ou não, nestas situações a intervenção do silvo do apito se fará necessário para chamar atenção dos jogadores.


O apito é um instrumento do árbitro, e como tal deve ser usado com destreza. O uso de forma desnecessária e freqüente terá menos impacto quando for necessário. Para iniciar o jogo, o árbitro deverá anunciar claramente aos jogadores que o jogo só pode reiniciar após este sinal.

3 de ago de 2009

A morte súbita dos árbitros

As pessoas ligadas à mídia esportiva nos inúmeros programas na televisão, que também fazem parte de outros meios de comunicação, como rádios, jornais e revistas esportivas, com colunas exclusivas e grande espaço nas emissoras – todas têm algo em comum: a possibilidade de ver e rever quantas vezes necessárias um lance duvidoso para dar seu veredicto final: a crucificação ou a absolvição do juiz ou bandeirinhas (juiz e bandeirinhas são termos pelos quais a mídia esportiva os chamam).


Tais opiniões são baseadas em cima de vários ângulos capturados pelas diversas câmeras de televisão espalhadas em redor do campo de jogo e até mesmo em cima dele, dos dirigíveis que sobrevoam o local da partida. Com todo este aparato tecnológico, tais pessoas não têm misericórdia, condenam à "morte" o árbitro ou seus assistentes, que contam com singelos segundos e apenas um ângulo de visão para aplicar uma das regras do futebol.
Contudo, temos dois bons exemplos de que tais pessoas, com toda estas parafernália eletrônica, vendo e revendo as imagens, ainda sim dão veredicto errados.


O primeiro exemplo vem da França, Copa do Mundo, 23/6/1998, Estádio Velódromo, Marselha, Brasil x Noruega. Próximo do fim do jogo, o árbitro Estandiar Baharmast (dos Estados Unidos) viu um pênalti cometido por Júnior Baiano. Para seu azar, todas as câmeras oficiais e não-oficiais, do tipo "câmera exclusiva da Globo", não flagraram a ação que gerou a penalidade. Conseqüentemente, o árbitro foi tarjado de "ladrão", principalmente depois dos comentários feitos ao vivo pelo narrador e o comentarista de arbitragem da principal emissora de televisão do Brasil.




No dia seguinte, a verdade – numa imagem feita por uma emissora que por acaso estava gravando cenas da torcida para um documentário a pedido da Fifa. Tal imagem revelou que o árbitro estava correto. Pênalti claro: Júnior Baiano agarrou e puxou o adversário dentro da área. Tarde demais, a sentença já estava dada, o árbitro estava voltando a seu país. No entanto, não houve qualquer pedido de desculpas por parte daqueles que o condenaram, ficou no esquecimento.


Difícil é enxergar


O outro exemplo vem da Taça Libertadores, o mais importante torneio de clubes da América. Não me lembro do adversário do São Paulo, porém recordo muito bem do lance: uma reposição de bola por tiro de meta. Executado com um chute forte do goleiro adversário, a bola chegou ao atacante completamente livre, entre ele e a linha de fundo só havia Rogério Ceni. Então vem a voz do narrador, aos gritos: "O bandeirinha está louco, está impedido, burro, burro, este bandeira está maluco, impedimento claro".


A partida seguiu normalmente. Em todas as participações do tal bandeira, voltava o comentário de "burro". Ao se aproximar o fim da primeira etapa, veio do nada o comentário: "Naquele lance do impedimento o bandeira estava correto, pois a bola veio de uma cobrança de tiro de meta, sendo assim não há impedimento". Mesmo reconhecendo o erro, ninguém pediu desculpas por chamar o bandeira de "burro". Mais uma vez a sentença estava dada.


Com estes dois exemplos podemos ver o quanto a arbitragem em nossos tempos está exposta a comentários destrutivos, sem a visão do árbitro, sem a visão do espírito do jogo. Os erros de arbitragem sempre existiram, hoje até com mais freqüência, por causa das inúmeras câmeras e recursos tecnológicos, e mostrar o erro da arbitragem exaustivamente rende ibope.
Isso não é justo. É fácil sentar numa cadeira em frente a um monitor de televisão e dar opiniões – seja na imprensa esportiva, falada, escrita e televisionada. Difícil é enxergar com os olhos da arbitragem.


Alfabetização da mídia


A sociedade futebolística será genuinamente democrata somente com a alfabetização dos meios de comunicação através da Carta Magna do futebol, pois sua influência é decisiva na opinião dos fãs deste esporte. Porém, para que isso ocorra, a mídia esportiva deverá condenar abertamente a crucificação dos erros de arbitragem de forma mais consistente do que faz, anulando o paradoxo que o árbitro se faz presente no solo sagrado para beneficiar uma das equipes, valorizando o ser humano – o árbitro – como o alicerce desta sociedade.


Sinto que a mídia esportiva vem se abrindo, de forma mais generosa, quando um erro de arbitragem é flagrado pelo olho frio da câmera de televisão, nos diversos ângulos. Os comentários têm sido feitos de forma ponderável, onde a visão do árbitro é também comentada, assim passando aos fãs as duas versões do lance registrado. Esta atitude é apenas uma gota d’água; todavia, uma gota d’água move um oceano, já é um começo.


Neste cenário, uma iniciativa de alfabetizar a mídia é a única via a uma sociedade futebolística mais justa e sustentável. A difusão do livro de regras, dos conceitos, das instruções, diretrizes de arbitragem, certamente colocará um fim no paradigma cultural que o árbitro é o vilão das partidas de futebol.